sábado, 10 de fevereiro de 2018

Crianças, eu vi um carro em órbita.

​Acho que uma das primeiras coisas que a gente aprende sobre o espaço, além de um mnemônico sobre os planetas (o que eu aprendi era "minha vó tem muitas joias, só usa no pescoço", o que entrega minha idade já que naquela época Plutão ainda era um planeta), é que a Lua parece um queijo e que em 1969 a Apollo 11 pousou lá.

Infelizmente na escola a gente aprende o básico do básico. Foi só depois de velha que eu aprendi que a mancha de Júpiter é uma tempestade gigantesca, que Vênus é lindo por fora mas um verdadeiro inferno na superfície, que algumas partes dos anéis de Saturno são feitos de poeira e gelo, que o eixo de rotação de Urano é na horizontal e não na vertical como os outros, e por aí vai.

Daí eu pensava que depois do acidente da Challenger (que foi outra coisa que eu só descobri que aconteceu depois de velha) ninguém tentou fazer mais nada relacionado ao espaço. Eu nunca parei pra pensar que os satélites e as estações espaciais que estão lá em cima são enviados por foguetes. Até que, cerca de um ano e meio, dois anos atrás, eu descobri como satélites eram lançados e como a ISS (sigla em inglês para a Estação Espacial Internacional) recebe suprimentos; descobri por causa dessa empresa aqui:



No dia em que eu escrevo esse post essa empresa, e o dono dela, o Elon Musk, já são bem conhecidos do público geral, mas eu só ouvi falar deles por causa do Twitter e dos podcasts que eu ouço. Fui no YouTube e achei uns vídeos de um foguete, o Falcon 9, em missão. Minha primeira reação deve ter sido “O QUEEEEEEEEEEEEEE?”…

Falcon 9 landing
Sim, isso é o primeiro estágio de um foguete pousando.

A empresa queria arrumar um jeito de baratear os custos de mandar coisas pro espaço, e reaproveitar o primeiro estágio é um ótimo jeito de fazer isso. Então a SpaceX acabou meio que ficando especialista em pousar o Falcon 9; de todos os lançamentos que eu vi, nenhum deles resultou em uma desmontagem rápida não planejada.

Daí essa semana a SpaceX fez o voo experimental do Falcon Heavy, que é basicamente um Falcon 9 adaptado como estágio central e dois Falcon 9 atuando como foguetes auxiliares. Para o voo experimental o foguete tem que subir com alguma coisa que simula o peso da carga que o foguete futuramente vai levar, daí o doido do Musk resolveu que era uma boa ideia colocar lá dentro algo que era dele.

roadsterSe eu fosse a dona da fábrica faria o mesmo.

Dentro do carro ele botou um Guia do Mochileiro das Galáxias, uma toalha e um disco com a trilogia Fundação do Isaac Asimov. No painel tem também um Tesla Roadster em miniatura com um Starman (o boneco com traje espacial ao volante) em miniatura. Um dos circuitos leva a inscrição “Made in Earth by humans” (feito na Terra por humanos), e naquela placa embaixo do carro tem o nome de todos os funcionários da SpaceX.

No dia do lançamento eu tava parecendo o urso do Pica-Pau logo cedo. Eu adoro ver os lançamentos do Falcon 9, é muito louco ver que um troço do tamanho de um prédio de 16 andares que geralmente caía e provavelmente explodia faz a volta e pousa. Quando foi chegando perto da hora do lançamento minha timeline do Twitter começou a ficar bastante espacial. Quanto a mim, saí do trampo correndo a tempo de conseguir pegar o ônibus com o celular na mão e o stream da SpaceX aberto. E o que rolou ali, senhoras e senhores, com o perdão do palavrão, foi do caralho.


O vídeo todo tem 34 minutos, mas aqui coloquei pra começar a partir de t-1 pro lançamento.

Como dá pra ver no vídeo (aproximadamente oito minutos depois do lançamento), os dois Falcon 9 que serviram de foguetes auxiliares pousaram, claro que pousaram, praticamente ao mesmo tempo e um do lado do outro – guardadas as devidas proporções. O central core não conseguiu pousar, dois dos três retromotores falharam e ele atingiu o oceano a cerca de 500 km/h. Deve ter doído. Mas numa missão cujo objetivo era botar o segundo estágio em órbita sem explodir no lançamento, pousar 2/3 do foguete é um baita dum lucro.

E pra completar a beleza da coisa o cara ainda me coloca Life on Mars pra tocar na hora em que a carenagem se solta do segundo estágio e as câmeras pegam o Roadster com o Starman no espaço. Nesse momento eu esqueci que tava de pé num ônibus lotado e comecei a chorar. Uma moça me ofereceu um lugar, provavelmente porque achou que eu estava passando mal…

Depois de um tempo entrou no ar um live video do carro no espaço, orbitando o planeta. Esse vídeo rendeu uma quantidade obscena de prints para proteção de tela, papel de parede, thumbnail de YouTube, vitrine de podcast, capa de rede social, capas de futuros livros…

roadster 1roadster 2roadster 3roadster 4roadster 5

Essas foram as que eu tirei, mas pela internet afora tem toneladas delas. Cada frame daquele vídeo é maravilhoso. Mais maravilhoso ainda é pensar que por aproximadamente seis horas havia um carro orbitando o planeta enquanto aqui embaixo os nerds estavam em polvorosa porque nós vimos um show de ciência sendo aplicada.

Depois desse tempo em órbita o motor do segundo estágio foi acionado para propulsionar o carro pra fora da órbita da Terra. Como o negócio deu mais certo do que se pensava, agora temos um carro com um boneco vestindo um traje espacial indo pro espaço profundo. Ele entrou em órbita heliocêntrica (ao redor do Sol) e, segundo alguns cálculos feitos, vai estar próximo da Terra de novo lá pra 2030.

Antes de o Roadster partir pro espaço profundo, porém, foi possível captar uma última imagem. Essa imagem já virou um clássico, mas ela é tão linda que não dá pra não mostrar de novo.

Starman going to deep spaceThere's a Starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us, but he thinks he'll blow our minds.

Eu, particularmente, ainda tô num hype desgraçado por causa disso. Eu já assisti ao vídeo do lançamento várias vezes, já li/vi/ouvi um monte de opiniões (teve Scicast especial, teve vídeo do Sérgio Sacani, teve texto no MeioBit, que aliás foram minhas fontes primárias pra esse texto, e mais milhares de outros conteúdos internet afora). E provavelmente vou continuar procurando informação sobre isso, porque ver a história sendo feita com um evento tão impressionante é algo que não se esquece nunca mais.

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5 Comentários:

Às 11 de fevereiro de 2018 00:22 , Blogger Leonardo Spricigo disse...

Antes de comentar eu fui pro YouTube procurar o primeiro vídeo da SpaceX que eu vi, foi esse aqui do primeiro teste de controle dos motores pra fazer o pouso no futuro: https://youtu.be/0UjWqQPWmsY

Continuando, minha história com coisas do espaço é muito parecida com a sua. Apesar de gostar, nunca tinha me aprofundado muito e foi a SpaceX que me deu esse tesão de assistir lançamentos que tenho hoje, acompanhando quase todos de todos os países.

Foi muito legal ver a Internet toda comentando esse lançamento incrível do Falcon Heavy e imaginar que talvez seja o que faltava para muitas outras pessoas começarem a se interessar por ciência e pelo espaço.

Parabéns pelo ótimo texto sobre esse lançamento histórico :)

 
Às 11 de fevereiro de 2018 12:58 , Blogger Elise disse...

Eita, esse vídeo aí eu nunca tinha visto! =D
Eu espero mesmo que esse tenha sido o empurrão pra que o interesse por ciência seja despertado. Uma coisa que eu não mencionei no texto é que eu acabei aprendendo uma porrada de conceitos de física pra entender o que acontece nos lançamentos.

 
Às 11 de fevereiro de 2018 13:57 , Blogger Leonardo Spricigo disse...

Exatamente haha na minha cabeça antes, pra colocar algo em orbita era só jogar pra cima. Aí descobri o Kerbal e ganhei uma boa noção de mecânica orbital que é legal demais.

 
Às 13 de fevereiro de 2018 15:23 , Anonymous PH disse...

Eu soube da noticia, fiz um "uau, interessante" mas Foi graças a Elise que pude entender a magnitude histórica desse evento e saber detalhadamente o significado dele. Mandou muito bem!!!!

 
Às 14 de fevereiro de 2018 11:38 , Blogger Alan Flamer disse...

Esse lançamento é pra explodir a cabeça de todo nerd. É pra inspirar uma geração inteira a buscar de novo a exploração espacial. Só de pensar que a gente botou uma coisa tão mundana quanto um carro pra orbitar o nosso Sol, já torna o assunto muito mais palpável pras pessoas.

E é foda ver o quanto isso pode até mesmo inspirar novos escritores de ficção científica. Imaginei alguém escrevendo uma história da terceira passagem do objeto espacial Roadster perto da orbita terrestre, só pra descobrir que entre acima da tinta desbotada do carro veio desenhado um símbolo bizarro que ninguém jamais viu. Aí vão perguntar pro Musk, em seus 105 anos de idade, só pra ouvir ele falar que não foi ele que botou aquele símbolo debaixo da tinta. Já pensou!! Ah caraiu rsssss

 

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